Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

The ground beneath her feet


Só há um escritor vivo a quem eu não me importaria de servir de mulher-a-dias esfregar umas escadas ou coser umas meias, e esse é o Salman Rushdie. Sim, é verdade, adoro o Saramago, admiro a técnica do Lobo Antunes (apesar do seu recente deixai vir as mim as criancinhas e os duendes felizes me custar a engolir), apesar de ter um grande fraquinho pelo Zafon... só o Rushdie está num patamar em que eu lhe faria tarefas domésticas de boa vontade. Não é o perfeito, não será tecnicamente o melhor, apesar de isso ser um pouco dependente das opiniões, mas é o único que escreve livros que eu consigo amar como pessoas, de verdade. Por exemplo, amo os livros do Saramago sem conflitos, complicações ou discussões, como uma filha pequena a um pai, mas amo os livros do Rushdie como se amam as pessoas, com mal-entendidosde parte a parte, irritações e ternuras inexplicáveis. E este Chão que ela pisa é, certamente, o meu livro preferido dele, aquele que mais me toca.
Como lidamos nós com a adoração, com o amor ao nosso lado e do qual não fazemos parte? O que fazemos com todos aqueles sentimentos que não têm nome ou dono, que surgem nos nossos peitos como ervas daninhas e sem os quais somos metade, menos de metade?
Levamos anos, décadas a fazer as pazes connosco próprios por aquilo que não conseguimos ser, por aquilo que não conseguimos ter, o amor não se pede, dá-se. E no entanto passaremos sempre pelos momentos onde olhamos para trás com raiva, ou com mágoa, ou com tristeza de todas as coisas que perdemos, de todas as coisas que poderiam ter sido. Não é que o amor seja diferente de homens para mulheres, é que ele é uma coisa de pele e de instinto, é que há nele vencedores e perdedores, aqueles que controlam e os que se deixam ir, seguindo o rasto de pés descalços pelas ruas da cidade, adorando o chão que quem amamos pisa...

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

O 4-4-2

Aos vinte levamo-nos demasiado a sério, com a mania que somos adultos, sérios e responsáveis, aos trinta somos putos de catorze anos que por acaso trabalham e têm carreiras e percursos académicos e assim. As pessoas sérias estão em casa com os filhos pequenos a discutir as prestações e a conta do pediatra, com o coração intacto de quem foi feliz à primeira, sem ossinhos nem espinhas nenhumas. Não têm- não podem ter- a nossa capacidade de resistência, ou de nos rirmos de nós próprios.
Somos, aos trinta, gatos arranhados e com marcas de batalha, duros e manhosos, a olhar para o mundo com um certo desdém desconfiado: tudo, mas tudo, sabemos, pode acontecer. Não se acabam em penas e batalhas amargas por mobílias e filhos os votos de casamento? Não são os amores perfeitos miragens, ilhas, pontes quebradas, desfeitas algures no passado e na distância? Não chegámos ao presente sem marcas, nem nunca mais seremos os mesmos. Que o amor não nos engana, como diz o poeta, com a sua brandura.
Somos, como aos catorze anos, complicados, revoltados, aborrecidos. Ninguém diria, no nosso dia adulto de fatos e saltos e gravatas e reuniões importantes, de laptops e documentos os putos vulneráveis que somos na nossa noite. Choramos na casa de banho, bebemos demais, dissolvemo-nos em raivas, em risos, na música, no fumo de mais um cigarro. Discutíamos testes e notas, músicas e batons aos catorze. Nada mudou excepto talvez as conversas serem um pouco mais subtis, um pouco mais cultas, de resto somos os mesmos.
Funcionamos em grupo, também como antes, meninos para um lado, meninas para o outro. Há sempre um jogo, um esquema entre as vodkas pretas, a nossa vida emocional mede-se pelo número de SMS que recebemos e combinamos. Haverá, ou não, ao fim da noite, um táxi para voltar a casa, uma cama estranha, os momentos de náusea e solidão da manhã que nasce e nos traz para um novo dia quase intactos, quase como éramos antes.
Comemos, com a vodka ou os shots, as iguarias que servimos, que deixamos que nos sirvam: os douradinhos do amor a fazer de conta que é sexo, os rissóis do sexo a fingir que é amor, ou pelo menos qualquer tipo de emoção forte ou significativa. Jogamos o jogo, atiramos a linha, contamos, no 4-4-2 com as amigas e a determinação e as botas da moda e trinta e seis ou trinta e sete SMS que não temos coragem para apagar porque são um guia, um diário, uma testemunha para aquilo que não tem nome nem existe. Se nos tocam escuridão e na noite o toque existe? É verdade?
Não há, na noite, preocupações com a condição feminina, não nos damos a esse luxo. Estamos, demasiado para lá dessas considerações. Aquelas que sabem emergir do jogo sem demasiadas cicatrizes insistem nele, as outras somos as flores do papel de parede a ver o ângulo e tantos, milhares de esquemas que redundarão em lágrimas na casa-de-banho ou toques furtivos na noite, ou passagens rituais, como os xamanes, por camas de brasas ardentes. Não dói, dizem, é mais uma questão de mentalização, de fortalecer o coração e os pés e avançar pelas escuras sendas da noite e do desejo. E amanhã, como diz a Scarlett, amanhã é outro dia.

Domingo, Outubro 18, 2009

I should have met you in the eighties



Fomos informados de quem seria o DJ da noite pelo seu filho de catorze anos, o que nos fez sentir incrivelmente velhos. Os DJ não têm filhos de catorze nos que por acaso até são nossos alunos, nem a música que nós ouvíamos aos catorze anos pode ser já usada para uma festa temática, pois não? Parece que sim.
A casa estava cheia, mas eram as miúdas adolescentes que mais estavam à anos oitenta, ainda não têm a capacidade de auto-ironia da gente; e resto já demos pra todos aqueles peditórios: botins de camurça com franjas, check, camisolona larga com ilustrações do Patrick Nagel, check, calças justinhas com All Stars, check, demasiado lápis preto e argolas enormes, vinte e três pulseiras com tachas de metal, check, check and check. Deus, como o tempo passa.
Para os miúdos que estavam lá, gente nascida nos finais dos oitenta e os noventa, ver-nos na discoteca era uma experiência entre o maravilhamento e o terror. Ver adultos, modelos de conformismo contra quem se rebelar, aliás, a dançar e cantar, perdidos nas músicas deve ter sido uma experiência estranhíssima, o mundo ao contrário. Depois, a nossa maneira de viver a música era completamente diferente, a músicas inteiras, com letras de rebeldia que gritar em vez da batida primitiva dos bocados das samples que agora ouvem e para as quais, sinceramente, estamos muito velhos e não temos pachorra nenhuma.
Deus, como éramos rebeldes, rebeldes contra tudo, de manhã com os riscos pretos e as calças dobradas ao fundo (duas dobras, fininhas, impensável sair de casa sem elas) mordíamos as rebeldias, rebeldes com os professores e as vidas e as expectativas e todas as autoridades. Agora, aburguesámo-nos, acomodámo-nos, demasiado sábios ou demasiado cansados pela vida para gritarmos como aos catorze anos, batermos com a porta, fazer uma fita, acreditar que podemos ser exactamente aquilo que queremos. Temos agora filhos e responsabilidades e empregos e alianças convenientes, rotinas estabelecidas, amores oficiais. Aqueles de nós que não os têm, por vontade ou capricho dos anos e da vida, amam muito mais cuidadosamente, nunca com o peito aberto que tínhamos antes: "I'll stop the worl and melt with you", gritavam os Modern English, "to die by your side, well the pleasure, the privilege is mine", respondem os Smith, Just like heaven, suspiram os Cure.
Envelhecemos, melhor, crescemos, para longe e para fora do que esperavam de nós, do que nós esperávamos. Temos agora esta consciência inevitável, com a maturidade, das nossas falhas, dos nossos erros, de todo o tempo perdido entre a nossa rebeldia dos catorze anos e a maturidade dos (meus) quase trinta e quatro. A consciência de saber que nunca mais seremos assim, como éramos nos oitenta. E não conseguir decidir se isso é uma coisa boa, se uma coisa má.


Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Here's Michaaaaaaaaaaaaaaaaaaaael

Meninas, o mocinho está de volta e agora os senhores da Warner Brothers fazem parte dos meus amigos próximos, digo íntimos. É tão giro quando não bloqueiam os videos oficiais no Youtube...
Here's Michael for your enjoyment, so enjoy.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

A super teoria de praticamente tudo

Apesar do tema eminentemente erudito, a verdade é que a inspiração para este texto emanou direitinha de uma música dos Gogol Bordello. Toda a gente sabe, aliás, que a minha cultura científica é a modos que limitada, se a coisa sair das ciências humanas. De qualquer maneira vamos lá a ver se me consigo explicar sem dizer muitas asneiras. Falava de uma super teoria, por isso vamos lá.
A tendência científica durante muito tempo foi para a especialização, saindo de uma ciência tipo sopa da pedra com um bocado de tudo, como a alquimia, e arrumando tudo direitinho em disciplinas cientificas e sub-secções específicas de estudo. Claro que depois perceberam que não era bem assim, por exemplo que a origem da vida na terra e o desenvolvimento das espécies não era estanque nem explicável apenas por coisas como a antropologia, também coisas como a geologia tiveram um papel fulcral neste processo. Daí a chegar à ideia de uma super teoria que explicasse basicamente tudo foi um passinho. Ainda não se encontrou, mas procura-se com afinco. E ouvi aqui há uns tempos um físico dizer que será, provavelmente, linda na sua simplicidade, como a teoria da relatividade, uma catedral no seu e= mc2.
Se os cientistas andam a procurar uma resposta apenas para todas as questões do universo, dei por mim a pensar se não haveria também uma super teoria para estas coisas da vida e do coração que aqui trato, não do sentido da vida, que toda a gente sabe que é o chocolate preto com uns travozinhos de menta, mas das emoções.
Sou, como vocês sabem, uma observadora da natureza humana. Como os narradores do E.M.Forster passo a vida a observar toda a gente a apaixonar-se e a desapaixonar-se, a amarfanhar-se e esgadanhar-se sem participar directamente. Isto dá-me, este distanciamento, uma espécie de abordagem científica à coisa. Por isso dei por mim em busca desta super teoria que explicasse estas coisas, todo este amor e corações partidos, todas estas batalhas em que se sai mais amachucado que outra coisa.
Como diz o Alain de Boton no seu Status Anxiety, todos procuramos a validação, a atenção e o reconhecimento incondicional dos nossos feitos como tínhamos quando éramos pequeninos. Ele aplica a ansiedade ao status e á forma como somos percebidos social e profissionalmente. Eu pensei (não muito originalmente, confesso) em aplicar isto ás relações homem-mulher, pois disso falo há três aninhos aqui no blog. Será verdade que a super teoria de quase tudo é que todos queremos atenção? É capaz.
Se problematizarmos, no entanto, esta teoria, ou melhor, deixem-me ser cientificamente correcta e chamar-lhe modelo científico, vemos que explica muita coisa, mas que é uma coisa simplista. Explica, por exemplo, a nossa monogamia em série, de um amor para outro e depois para outro, mas não tem em linha de conta, por exemplo, o equilíbrio precário de poder entre os dois sexos, ou uma série de constrangimentos culturais e morais. Quem acha que o amor é entre duas pessoas e não elas, eles e a soma das circunstâncias de ambos está muitíssimo enganado. Não há, a não ser nos romances do Saramago, e benza-o deus por isso, amantes perfeitos sem ansiedades nem fios nem complicações. Haverá sempre ânsias e desejos inconfessáveis e sentimentos de posse, porque somos imperfeitos. Haverá, sempre, entre homens e mulheres aquilo que fica por dizer e por perceber, que não se lê e não se diz , como se fossem didascálias. Mas sim, se quisermos ser simplistas pensaremos que a super teoria de quase tudo é a necessidade de validação, ou aceitação de quem somos e do que fazemos. E nisto os Beatles estavam, não errados, mas incompletos: não precisamos só de amor mas sim de nos sentirmos válidos, valorizados E esta é a verdadeira super teoria de praticamente tudo. Pelo menos segundo aquilo que conheço do mundo.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Are you strong enough to be my man?



Confesso que um dos momentos mais divertidos dos meus dias ultimamente acontece cada vez que um dos meus colegas novinhos, acabadinhos de colocar, tem de visitar o meu escritório (e ultimamente tem de lá ir muitas vezes). E não é que esteja especialmente interessada no moço, a falar verdade é um pouco novinho para o meu gosto, mas acreditem, a expressão de terror abjecto e os olhos vidrados do moço cada vez que tem de lidar comigo é impagável. Encolhe-se no seu metro e noventa e nos seus prováveis noventa kg e fica com a expressão vítrea de um veado em frente aos faróis de um carro, de língua atada. E pronto, já foi mais uma vítima.

Como ando a intimidar homens há décadas, confesso que a reacção do rapazinho me diverte. Sei que estou a ser mazinha e que podia perfeitamente ser menos descarada e mais acessível, mais meiguinha, que podia tranquilizá-lo que não mordo. Mas conhecendo bem o meu próprio espírito retorcido sei perfeitamente que lhe diria que não mordia... e depois acrescentar logo a seguir: muito... e só quando me pedem... e pronto, voltava o sorriso fixo e o olhar aterrorizado, pelo que não iria adiantar muito... É que, de acordo com a minha experiência, ou achamos piada ou choramos que nem umas madalenas com o facto de intimidar a maioria do género masculino. Eu como acho que chorar me arruína a cútis costumo rir.

A maioria (esmagadora) dos homens sente-se intimidado e ameaçado por mulheres fortes. E não, não estou a usar fortes como eufemismo para gordas, o que deixem que lhes diga é do mais irritante, mas sim para fortes, pesem o que pesem. Uma mulher com ideias e opiniões e sem medo nenhum de as expressar costuma inspirar nos homens as reacções giras que o meu colega tem e tanto me divertem. Ou então fogem. É que para quem é tão o sexo forte, têm tantas ou mais fraquezas e neuroses que nós em termos de quem são. E uma mulher mais moldável, mais cordata, mais frágil que eles faz-lhes maravilhas ao ego.

Contrariamente ao que possa parecer, tenho relações cordiais e mesmo amizades duradouras com membros de ambos os sexos, isto para já não dizer do apreciadora que sou do género masculino, pelo que os conheço bem. Os homens irritam-me, divertem-me e atraem-me na mesma medida, e como estudiosa do género posso dizer com um certo conhecimento de causa que são, como nós, seres frágeis e muito poucas vezes corajosos (cobardes é uma palavra um pouco forte). E isso não tem nada de mal, acreditem. Só é desapontante.

Um homem que reage a uma mulher como o meu colega, ou seja, como se estivesse prestes a ser submetido a um pelotão de fuzilamento, dá cabo da auto estima de uma mulher. Pode ser uma reacção inconsciente, como acredito que seja, mas bom, o mal está feito. São precisas décadas, como as que eu já tenho, de experiência em intimidação para podermos achar nem que seja um módico de piada ao facto de sermos vistas como um destino pior que a morte. Mas a alternativa é inviável, o deixarmo-nos afectar. Acho que o que está mal no universo feminino passa muito pelo facto de as mulheres viverem mal com quem e como são, escondendo-se só porque os homens as tratam mal, ou as ignoram ou whatever. E não estou a falar de corpo, mas do todo, das opiniões e força de carácter, mau feitio e força de convicções. Sejam o que forem, honestamente, sem subterfúgios, a fraqueza alheia não pode servir como causa da nossa infelicidade.

Eu consigo divertir-me com a reacção do puto, coitadito, e vocês, riem-se com as tragédias masculinas que por aí andam? É que se não o fazem, deviam. A alternativa é muito pior.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009